sábado, 5 de fevereiro de 2011

como eu sou um girassol,

Quando eu estava na primeira série do ensino fundamental, tive uma amiga que tinha perdido a mãe. Ela se tornou uma espécie de exemplo. Quando eu lembrava da Mônica, eu lembrava disso. E quando eu penso na minha  mãe, eu lembro dela também. Eu pensava nela como uma pessoa muito corajosa, mesmo que nós duas tivéssemos  quase 6 anos. Naquela época, essa dor, esse caminho parecia surreal. Na minha cabeça era, porque a minha mãe sempre foi tudo pra mim. Nunca acreditei que ela era  apenas minha "mãe", porque ela era minha melhor amiga e ela seria eterna.
Minha mãe-amiga ria comigo, de si mesma, de mim, de todos. Ela acordava sorrindo, as 5:30 da manhã e saía de casa perfumada (ela tinha cheiro de café, de sabonete e de Myriad) e maquiada. Sempre maquiada. Ela se maquiava para  limpar a casa, para dar banho nos cachorros.
Eu me lembro do sorrisinho dela quando fazia algo que realmente gostava. Da última  vez que saímos de noite, fomos para a formatura de ensino médio da minha prima. Na  volta, ela comeu um McFish, sujando o carro, o volante, o banco, a roupa. E ela disse: "Essa é a coisa que eu mais gosto de fazer: sujar tudo e ninguém reclamar, porque o  carro é meu."
Um dia desses, encontrei uma unha postiça dela. Se encaixou exatamente na minha. Todas as manicures que fomos falavam como eram parecidas nossas mãos. Pequenas.
Ela também gostava de fazer comprar, de comer sushi no shopping, de cural, de Queen ("eu era tão apaixonada pelo Freddinho!"), de arrumar tudo para que ficasse "chiquetoso" (ela inventou essa palavra). Ela também gostava de inventar palavras. Ultimamente, ela gostava de assistir "Law & Order". Era decoradora de ambientes, advogada, médica e exagerada... Exagerada num bom sentido. Ela exagerava em tudo. "Ela ria tanto na cozinha!", ela dizia sobre mim  depois que eu comentava e sorria da piada que ela tinha mandado por e-mail.
Ela tinha aquele bom gosto que só ela, um estilo próprio. Nós abrimos o armário dela e  encontramos muitas coisas que mesmo sem saber, diríamos "isso é minha mãe. tem  que ser coisa da minha mãe". Quantas pessoas ela comentava, achando graça, que  tinha perguntado onde ela tinha comprado a blusa, onde ela cortava o cabelo, como  ela passava a maquiagem nos olhos?
Os olhos. É o que eu mais sinto saudade. Uma das únicas vezes que me lembro de ter visto minha mãe chorando, os olhos dela estavam ironicamente mais bonitos que nunca. Eram claros, cor de mel, mas naquele dia eles estavam puxando para o  lado do verde e refletindo a luz.
Pensando bem, acho que no final das contas minha mãe continua sendo eterna enquanto eu ainda lembrar dos olhos dela. Eu amo os olhos dela. Eu amo a minha mãe.

Essa foi a última foto que tirei dela.

3 comentários:

  1. Que texto mais lindo nana. Adorei a parte do mc donalds sujando o carro. :} Ela era uma figura, nossa mãezinha amada.

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  2. Amei o texto também, Nanna. Texto maduro. Gostei do seu estilo. Amei a foto!se tiver mais pérolas desta não deixe de colocar nos outros posts. Alguém manda o link para minha avó?

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  3. Tb tenho viva na memória a alegria contagiante de Lala, como no dia da colação de grau da Jéssica. As fotos daquele dia, tiradas por vc, retratam, com absoluta fidelidade, essa nossa percepção. E, se depender da sua lembrança, Nana, quanto aos olhos da sua mãe, ela será sim eterna. Bjs. Te amo.

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