terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Todo domingo

Em dezembro eu fazia planos do que te dar de natal. Já sabia, seria uma melissa de bico fino, como aquela que você tinha me dado. Eram engraçados esses nossos gostos parecidos... Nós usamos o mesmo perfume por anos, o myriad. Aquele de cheiro doce e forte, que às vezes dava dor de cabeça nas pessoas.
No dia 5, algumas horas antes de você partir, eu tinha acabado de pintar meu cabelo de vermelho e estava louca pra te mostrar. Mal sabia eu que não teria essa chance tão cedo. Sei que você viu, mãe. Sei que achou o máximo e sofre por não poder me dizer aqui, nesse plano.
Eu estava ansiosa pois tinha combinado de passar metade das minhas férias em Brasília, exatamente na época que você também estaria de férias, dia 3 de janeiro. Iríamos passear, visitar a vovó, ir nos shoppings, gastar o dinheiro que não tínhamos, rir, comer pamonha, fazer as unhas. De noite passaríamos no mc donalds, levaríamos o maior sanduíche pro papai e iríamos pra chácara brincar com a kisuco e tomar uma cerveja preta.
Daí eu e meu pai sentaríamos na sala, enquanto a nanna estaria no quarto dela, você na cozinha ou no seu ateliê. Eu e meu pai ficaríamos te chamando horas pra se juntar a gente. Mas você não viria, porque você sempre achava alguma coisa pra limpar, algum botão pra costurar, alguma roupa pra lavar. Às vezes você poderia até ficar lá um pouquinho com a gente, enquanto comíamos um brigadeiro daqueles que você fazia.
Então, depois de vários dias assim, eu voltaria pra Curitiba com o dobro de coisas que levei, pois você adorava me dar algumas de suas roupas, ou algum creme, maquiagem... ou sei lá, um porta-retrato de zebrinha.
Todo domingo, mãe, eu te ligava pra saber como estavam as coisas. Eu tinha que reclamar pra você largar o que estava fazendo (limpando, cozinhando, etc.) pra poder falar comigo no telefone e se concentrar na ligação. Era engraçado.
Às vezes a gente brigava. Brigava porque você achava que eu tinha uma visão política diferente da sua e você se exaltava tentando defender seu ponto de vista. Em vão, porque eu já concordava, você só não percebia. Ou qualquer outra bobagem.
E aquele cuzcuz com ovo? Mãe, o que era aquilo? Sorte a minha que a Ciça sabe fazer um tão gostoso quanto, porque eu não sei como sobreviveria sem aquilo.
Poucas pessoas saboreavam uma jaca como você. Eita sangue nordestino! Depois ficava passando mal... Seria porque você tinha devorado uma jaca inteira?
O mais engraçado era ver você, que quase não bebia, já altinha. Bastava umas duas caipiroskas de pitanga ou uma taça daquele vinho ruim que você gostava e.. tchan! Já estava falando e rindo pelos cotovelos.
Era gostoso te ver rir, ria com gosto, ria de tudo, até de como eu lavava louça.
Ria de como eu era desengonçada e ria das histórias que eu contava sobre ter superpoderes.
E quando a gente ia na manicure, eu via o brilho nos olhos dela falando das filhas e do marido.
Ô mãe. Que saudade.



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